terça-feira, 24 de março de 2009

Artigo

No limite do jornalismo cabofriense
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Por Lucas Müller

“Há momentos em que silenciar é mentir” (Unamuno). Certas frases traduzem exatamente o que sentimos. Me sinto um mentiroso.
Há cerca de três anos e meio, por ideário coloquei em minha mente que gostaria duma profissão que mudasse as coisas ao meu redor, escolhi jornalismo. Cresci imensamente como homem, e agradeço a Deus por isso, mas confesso que não vejo mais o além da minha profissão em minha cidade – Cabo Frio. Cheguei no que chamo ser a “linha limite”.
Em todo esse tempo, acho que não existiu uma única semana em que eu não conhecesse uma pessoa diferente – ou melhor, conhecer não, pois leva tempo, mas observar e tentar senti-la. Viver nas ruas por trabalho é magnífico, a experiência adquirida jamais morre. Quando você é muito curioso, a realidade, ou fragmentos dela, se torna mais latente. Com a observação da realidade e vivência nela, a verdade mostra-se, mas até onde você seria capaz de suportá-la?
Ver com seus próprios olhos ou ouvir de testemunhas – algumas mentirosas, outras duvidosas e poucas verdadeiras – a nossa doença, o nosso cancro cabofriense: prostituição infantil no segundo distrito, seres humanos se alimentando em nosso lixo, corrupção policial pelo tráfico de drogas, fantasmas públicos - alguns inclusive da mídia, alguns parasitas públicos que fingem que trabalham ou estão tão iludidos e se entregaram ao passar dos dias. Afinal para onde correr se nossa cidade não gera emprego? E nosso turismo é ridículo, amador em todos os sentidos.
Na educação, ver uma subvenção de Carnaval que é o mesmo preço da construção duma faculdade pública, mas ver todos preferirem as migalhas das bolsas de estudo, ou os diplomas mais fáceis das privadas. Nosso imediatismo de “sucesso” é a nossa decadência.
Ver o funk, alcoolismo e drogas (licitas e ilícitas) que destroem nossas crianças e jovens, a mídia de massa nos tornando carneiros consumistas, o judiciário vendido, a eterna litania infindável por todos os cantos. Ver médicos e professores, com admiração e ao mesmo tempo com repúdio, daqueles que são heróis anônimos aos assassinos do futuro, lado a lado.
Levei um longo tempo para enxergar – talvez por ser sonhador demais, sempre me disseram isso – que nossa mídia não existe. O que é uma lei – prescritível – é que a mídia jamais se volta contra os seus patrocinadores. Mas se o patrocinador é justamente o poder público, então para que mídia?
Basta observar agora, com a queda brusca dos royalties do petróleo em nossa Prefeitura (cerca de 50% em cinco meses - de R$ 12 milhões em outubro a R$ 5,8 milhões em fevereiro) diversos jornais não circulam por não ter o sagrado patrocínio público, os canais televisivos e radialistas em crise, alguns a fechar se a torneira pública não for aberta em alguns meses.
E, por fim, a nossa escolha, o nosso dever, a nossa diretriz – a nossa política. Em grande parte das cidades do país, verbas desviadas, compra de votos, enriquecimento ilícito, superfaturamento de obras, assistencialismo como garimpo de votos, os chamados “conchavos políticos”, que mais se assemelham a correntes, em uma democracia essa é a sua ditadura – não poder se livrar das pragas que o levaram ao topo.
Ás vezes também me pergunto para que existem Câmaras dos vereadores no Brasil? Gostaria realmente de conhecer alguma em alguma cidade do país em que ela não fosse uma gueixa da Prefeitura ou de um político que a deseja.
Como caçar demônios que são amados e eleitos pelo povo? Ou seja, por nós. Sinto-me diariamente culpado por tudo o que acontece. Nunca poder provar – ou noticiar - porque as testemunhas são passivas (a alimentação de suas famílias conta mais alto) e minha profissão nessa cidade não me permite isso. E mesmo se conseguir só, nu, provar para quem? Para polícia? Para justiça? Para nós?
Meu silêncio me sufoca, a indignação me faz tremer de ódio. Outro dia desses vi um filme chamado Paradise Now, e vi minha cidade, e me vi num personagem. Tirando a estética, não vejo muita diferença em viver na Palestina e viver em Cabo Frio. Hoje vivemos de inimigos invisíveis e confesso que prefiro morrer na Palestina.Pretendo um dia chegar ao topo dos topos e chegarei. Vejo que como se fala e se acha - não se muda nada de baixo - apenas de cima. Posso modificar alguma coisa por um curto tempo, mas não mudar. A mudança deve vir pela mente e não pela carne do sistema. Deve-se vir do alto poder, não do baixo. Algumas pessoas podem me perguntar por que ainda continuo escrevendo? Em Cabo Frio, apenas por dois motivos: o resgate da cultura antes-televisão e divulgação e procura de talentos locais, e fora daqui, porque aviva o meu caos.
* Texto publicado no Jornal de Sábado em 21/03
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4 comentários:

Ravi Arrabal disse...

E precisa comentar?
Bravo, Lucas!

flaviopettinichiarte disse...

Querido Lucas, que não conheço pessoalmente, parabéns pelo artigo, muito claro e inteligente, eu teria chamado ele de “Reféns da Barbárie” pis você se limitou a falar da tua área, o que já é muito importante, pois só com uma Mídia livre poderá existir um pensamento livre, mas, eu vejo que nesta cidade somos reféns de tudo, não só da falta de informação.
Parabéns novamente e não mude nunca essa maneira de analisar as coisas,esta cidade precisa de pessoas como você!

Flavio Pettinichi – Artista Plástico

Lucas disse...

Caros Baggio, Ravi e Flávio agradeço todo apoio. Obrigado mesmo. A cada dia mais percebo que não somos poucos, apenas estamos isolados.

Mudaremos muitas coisas, se Deus quiser.

provisoriedade disse...

Caraca, Lucas... É um artigo com a singeleza de um chute nos colhões...
Cheguei aqui meio por acaso, mas agora quero que você me inclua-me a mim na sua lista de pessoas que leem seus artigos on line.

Parabéns e abraço,
heraldo hb /.